quinta-feira, 17 de setembro de 2009

The Place


Eu preciso de um lugar em que eu possa fumar meu cigarro em paz, assistindo um jogo de futebol, com uma latinha de cerveja molhando o encosto da poltrona, e o com o cinzeiro quase lotado.

Eu preciso de um lugar onde eu possa fritar um ovo as 11 da noite, só porque me deu vontade de comer pão com ovo.

Eu preciso de um lugar onde eu possa esquecer de levar o lixo pra fora, ou esquecer de trocar o papel higiênico do banheiro, ou esquecer de arrumar meu guarda-roupa. Porque, afinal de contas, quem vai colher os frutos desses esquecimentos sou eu, e somente eu.

Eu preciso de um lugar onde probleminhas sejam probleminhas, e não se transformem e um conflito internacional diplomático-familiar.

Preciso de um lugar onde eu abra a geladeira e só encontre coisas que eu goste. Ainda que em pouca quantidade, mas só coisas que eu goste. Assim, não precisaria mais estocar um kit básico de almoço/janta nos dias em que a mistura é vagem, ou berinjela refogada.

Preciso de um lugar onde ninguém me rotule ou me defina.

Preciso de um lugar meu.

terça-feira, 15 de setembro de 2009

The Experiences


Algumas experiências vividas por nós, nos dão uma sensação de obrigatoriedade com o mundo. Bom, pelo menos eu me sinto na obrigação de compartilhar algumas que foram vividas por mim, nessas últimas semanas. São elas:

Quando você for a algum casamento, evite pegar mais bem-casados do que seu bolso comporta. Você pode acordar com o interior da sua calça lambuzado de doce de leite, e no final, os docinhos vão parecer que foram pisoteados antes de entrar no seu bolso.

Se você for padrinho/madrinha de um casamento, se conforme: você vai chorar. Faça como todo mortal e leve um lenço no bolso.

Cuidado ao conversar com convidados que você não conhece. Dias mais tarde, você pode descobrir que aquela loirinha interessante é uma biscate bissexual, drogada, barraqueira e que estava na festa de bico, ou seja: chave de cadeia. E nada de trocar telefones. Melhor evitar correr o risco de ser convidado para uma festa gótica.

Nada contra bissexuais, ok?

E nada como esquecer o aniversário do seu melhor amigo, uma vez na vida. Você nunca mais esquece.

Se você for fazer uma trilha até aquela cachoeira maravilhosa, naquela cidadezinha do interior, vá de chinelo, ou tênis. NUNCA descalço. Só parar registrar, nunca é nunca mesmo, ok? O caminho até a cachoeira não é de tatame. A sola do seu pé pode ficar completamente esfolada, e algum inseto gigante pode te picar. Merda.

E lembre-se: não entre na tal trilha, tomando cerveja. Você não está indo comprar cigarro no boteco da esquina. Latinhas na mão, além de te fazer perder o equilíbrio, impedem que você use os 2 braços para matar as mutucas que vão te mastigando no caminho.

Quando você está num bote, em direção a uma queda de 3 metros, remando a favor da correnteza, e acha que as coisas estão ruins, não se preocupe: mais a frente há uma queda de 4 metros. Dá tempo de praticar todas as orações que você sabe. E infelizmente, depois de passar todas as quedas, você não pode entrar na fila e ir de novo.

Evite gritar "eita!" quando a moça gorda do caixa do açouge, virar de costas para você e abaixar para pegar mais sacolinha plática. Ela pode ouvir.

No mais, live and let live.

segunda-feira, 31 de agosto de 2009

The Patience


Atendente: - "Dinheiro ou cartão?"

Clark: - "Cartão da loja."

(Entrego o cartão)

A: - "O Sr. teria o seu cartão?"

C: - "Não tenho. O da minha mãe não serve?"

A: - "Desculpe Sr., mas não é permitido compra com cartão de terceiros."

C - "Terceiros? É minha mãe! Quer meu RG?"

A - " Não será necessário, Sr. De qualquer modo, a assinatura não é a mesma. Infelizmente não posso passar a compra. Procedimento da loja."

C - "Eu sei falsificar a assinatura dela direitinho. Treino desde o colégio. Pode ser?"

A - "Mais um motivo para eu não autorizar a compra."

C - " Ah claro.. hoje de manhã eu dei uma surra na minha mãe, só pra roubar o cartão da Riachuelo e comprar uma bermuda de 20 reais em 5 vezes. Faz sentido."
Fui embora e deixei a merda da bermuda por lá mesmo.

quinta-feira, 27 de agosto de 2009

The Day


Um dia, eu vou dispensar a mesma atenção e preocupação que a maioria das pessoas dispensam a mim.

Um dia, eu paro de ouvir os problemas dos outros e começo a escutar só quem me escuta.

Um dia, eu mando pra casa do caralho esse bando de gente que eu insisto em me preocupar, sendo que a recíproca não é verdadeira.

Um dia, eu vou me enxer e começar a falar a mais nua verdade, da forma mais simples possível.

Um dia, eu canso de esperar e apago da memória algumas pessoas que há tempos ocupam um espaço ocioso dentro dela. Assim, quem sabe, o espaço torna-se produtivo.

Um dia, eu sumo e atualizo meu círculo íntimo de amizade para apenas 1 dígito.



Juro.

segunda-feira, 17 de agosto de 2009

The Toast


Essa não é uma história. Mas vale um post.

O tempo sempre passou de uma forma diferente pra mim. Na maioria dos casos, demorou mais para passar. Em alguns outros, passou depressa demais. Hoje, eu sinto saudade das ocasiões em que ele passou muito rápido, e me lamento por quando as coisas aconteceram de forma lenta.

As vezes me dou conta de que vejo a vida das pessoas passar diante dos meus olhos. E sempre com a prerrogativa de não participar ativamente de nenhuma delas. A regra é simples: chego, fico, cumpro meu papel, saio e vejo as coisas acontecerem. Ninguém se mantém na minha. Eu na me mantenho na de ninguém. Sou o rei dos casos efêmeros e das oportunidades provisórias. Já esqueci de como se encanta alguém a um certo tempo. Nunca sou interessante o suficiente para as pessoas que despertam interesse em mim.

Tenho um talento para enxergar as pessoas. Enxerguei uma bem especial esses dias, mas não foi recíproco. Uma pena. As vezes, as pessoas sentem-se sozinhas por pura falta de percepção e sensibilidade. E olha que dessa vez, à primeira vista, possuía todos os predicados. Potencial incrível, sabe? Engano meu. Uma mistura corrosiva de medos, de todos os tipos, já determina o fim dessa história: "Morreu aos 90 anos, solteira. Deixa irmãos e sobrinhos". Se for o caso, depois eu escrevo à lápis, ao lado: "Porque quis".

Sabe como é né.. de lápis, sai mais fácil.

Um brinde aos que passaram e aos que nem chegaram a passar.

quarta-feira, 12 de agosto de 2009

The Repeat


Devido ao sucesso do último post, concluí que tenho um certo talento para contar histórias.

Sendo assim, decidi contar uma outra passagem bem interessante da vida de um certo protagonista que, em histórias malucas, é um craque.
Aguardem cenas dos próximos capítulos.

quinta-feira, 6 de agosto de 2009

The Legend



Já era 10º ano consecutivo que ia àquele lugar. Pelos seus cálculos, o recorde de presença em temporada consecutivas, era dele. Vinte no total. Sentia-se orgulhoso por demonstrar tamanha fidelidade a um lugar que lhe proporcionara tantas alegrias. Era o deu jeito de dizer "muito obrigado" a cada árvore, cada pedra, cada pedacinho de grama, enfim.. cada cantinho daquele lugar.

Começou a frequentar o acampamento bem cedo, a convite de um grande amigo. Mas agora já se encontrava na idade limite para um acampante. A partir do ano que vem, não poderia mais enviar sua inscrição, como fez nos últimos 10 anos. E isso o assustava. Não conseguia vislumbrar suas férias, sua vida, sem aquele lugar. Ali fizera amigos, dividiu alegrias, tristezas, conheceu inúmeras vitórias e algumas derrotas que o fizeram aprender, crescer, amadurecer. O acampamento fora testemunha de sua juventude e sua adolescência.. dos amargos desamores nas temporadas, das mais sedutoras conquistas amorosas, enfim.. de tudo que um jovem vivencia dos seus 8 até os 18 anos.

Mas a esperança sempre foi a última a morrer. Principalmente naquele lugar que, parar ele, sempre foi mágico. E operava milagres sim, vez em quando. Podia conversar com o diretor.. quem sabe, depois de tantos anos de dedicação e participação nas temporadas, uma excessão poderia ser aberta e aceitariam um acampante com 19 anos, na temporada seguinte. Mas nada era certo. E ele chegou tenso como nunca para aqueles 6 dias.

Já tinha um alto prestígio dentro do lugar. Com vinte temporadas de experiência, já era veterano e figurava entre os mais populares do acampamento. Dormia no lendário quarto 16 a cerca de um ano e meio, ou seja, chegou ao topo cedo. Coisa rara. Com ele, mais 4 fiéis companheiros de longa data. Também veteranos. Também populares. Juntos, formavam um grupo inseparável e admirado pela maioria dos outros acampantes e, claro, gozavam de diversos privilégios concedidos pelo diretor, que tinha grande apreço por todos eles. Café da manhã fora do horário, saída furtivas do quarto quando todo o lugar já estava recolhido, cigarros, chave do banheiro externo, etc. Por lá, viu passar grande acampantes, tão populares quanto ele era agora. Talvez por isso, sempre teve ambição de possuir o mesmo respeito e despertar o mesmo fascínio que aqueles antigos veteranos despertavam nele. E enfim, tinha chegado o seu momento.

Sua atividade favorita era o futebol. No início da sua jornada como acampante, quando ainda era criança, aquele imenso tapete verde era o principal motivo do seu regresso, ano após ano. Mais tarde, já adolescente as prioridades mudaram um pouco, mas ali ainda era seu refúgio, seu porto seguro, o lugar dentro de sua casa, onde ele sentia-se mais em casa. Não era raro encontrá-lo com a cabeça encostada na trave, após o almoço, tirando um cochilo. Cena essa aliás, que rendia boas risadas das amigas que não compreendiam o fascínio que aquela grama baixa despertava no já veterano amigo. Os jogos, os campeonatos inter-quartos, as disputas ali naquele espaço, nortearam grande parte da sua vida como acampante. Era justo que ali, encontrasse a resposta para sua angustiante situação. E ela veio.

Desde pequeno, tinha feito gols e mais gols naquelas balizas. Perdera a conta de quantos. nunca foi um exepcional jogador, mas possuía certas característica que o destacava-se entre os demais, como a velocidade por exemplo. E àquela altura, seu status no lugar lhe rendia sempre a opção de joga no time mais forte. Mas mesmo com todos os benefícios e toda a sorte que aquele campo de futebol havia lhe proporcionado durante anos, uma coisa ainda estava por fazer. Algo que não conseguiu em 10 anos de temporadas. Um gol de pênalti.

E não foram poucas as oportunidades para realizar o feito. Não raro eram as vezes em que se aplicava a penalidade máxima em algum jogador mais abilidoso. E quem escolhia o cobrador era sempre o acampante em campo com mais prestígio. Questão de hierarquia. No início, bateu poucos pênaltis, mas depois a freqüência foi aumentando. Campeonatos, partidas aleatórias, futebol de casal, na chuva, debaixo do sol do meio dia, no fim da tarde.. Seja qual fosse o horário, a situação e o adversário, o tão sonhado tento nunca veio. De tanto perder pênaltis, a história foi se tornando popular entre os adeptos. Quem passava boa parte do dia no campo de futebol, junto com ele, tomou conhecimento da "maldição" e se acostumou a vê-lo em busca do seu gol nunca feito.

Mas ao mesmo tempo que sua história servia de inspiração, também aflorava um estranho sentimento nos demais. No fundo, apesar das brincadeiras e das piadas oportunas, todos queriam que aquele fato acontecesse. Mas ninguém queria facilitar. Naquela temporada, na maioria dos jogos em que ele estava em campo, o time adversário evitava fazer faltas dentro da área de uma maneira fora do comum. As vezes, com medo de um pênalti ser marcado, deixavam o jogador chutar como queria, trocando a falta pelo gol certo. Gol sim, mas não de pênalti. Virou a regra principal. A façanha teria que ser realizada por ele mesmo, teria que ser merecido, suado. Senão não tinha valor. E ele também compartilhava da mesma opinião. E aquela era, na teoria, sua última oportunidade. A idade o alcançara, e no próximo ano, já não seria mais acampante. O tempo também jogava contra ele.

No último dia completo da temporada, já não cabia em si de tanta ansiedade. Não havia decidido nada sobre sua permanência no quadro de acampantes do próximo ano, ou seja, não sabia se aquele era seu último dia como acampante. Mas sabia que havia o futebol.

Sempre havia o futebol.

Entrou para jogar como se esse fosse mais um, entre os tantos jogos já disputados ali. Esse era o sentimento dentro dele. Na dúvida, achou melhor encarar aquele jogo como outro qualquer. Assim a sensação de despedida não encontrava terreno fértil, e seu coração mantinha-se um pouco menos apertado. Mas o lugar ainda era mágico, e lá pelo fim do jogo o improvável aconteceu.

Alguém entrou na grande área e um perna incoveniente surgiu. No meio de pernas, tênis, bola, sol e gramado, o resultado foi um só: pênalti. E o cobrador, claro, já estava decidido antes daquela temporada começar.

Pediu a bola, com calma. Colocou na marca da cal. Tomou distância. No gol, um dos seus melhores amigos, integrante do quarto 16, ria e avisava em alto e bom som, parar quem quizesse ouvir, que estava destinado a manter a tradição e estragar a festa do amigo. Alto, esguio e de movimentos rápidos, era, sem dúvida, uma barreira difícil de ser ultrapassada.

Naquele momento, quem estava em campo, quem estava em volta, assistindo, quem conversava num banquinho qualquer, quem ouvia música, e quem apenas estava ali, sentiu o clima e parou para assistir. As pessoas talvez não tivessem noção do que estavam acontecendo. Talvez até nem sabiam da tal "maldição". Mas no ar, dava pra sentir que o momento não era como qualquer outro.

A bola, dessa vez, tomara o caminho certo.

O campo e a bola, fiés companheiros, enfim tinham lhe dado a resposta que precisava. Estranhamente, (mas não tanto), ele não quis mais jogar. Não disse nada, apenas saiu de campo chorando sob olhar orgulhoso de todos. Foi a última coisa que fez dentro daquele gramado.

Naquele momento, teve a certeza de que aquela era sua última temporada.

O acampamento que buscasse uma nova lenda.