
Começou a frequentar o acampamento bem cedo, a convite de um grande amigo. Mas agora já se encontrava na idade limite para um acampante. A partir do ano que vem, não poderia mais enviar sua inscrição, como fez nos últimos 10 anos. E isso o assustava. Não conseguia vislumbrar suas férias, sua vida, sem aquele lugar. Ali fizera amigos, dividiu alegrias, tristezas, conheceu inúmeras vitórias e algumas derrotas que o fizeram aprender, crescer, amadurecer. O acampamento fora testemunha de sua juventude e sua adolescência.. dos amargos desamores nas temporadas, das mais sedutoras conquistas amorosas, enfim.. de tudo que um jovem vivencia dos seus 8 até os 18 anos.
Mas a esperança sempre foi a última a morrer. Principalmente naquele lugar que, parar ele, sempre foi mágico. E operava milagres sim, vez em quando. Podia conversar com o diretor.. quem sabe, depois de tantos anos de dedicação e participação nas temporadas, uma excessão poderia ser aberta e aceitariam um acampante com 19 anos, na temporada seguinte. Mas nada era certo. E ele chegou tenso como nunca para aqueles 6 dias.
Já tinha um alto prestígio dentro do lugar. Com vinte temporadas de experiência, já era veterano e figurava entre os mais populares do acampamento. Dormia no lendário quarto 16 a cerca de um ano e meio, ou seja, chegou ao topo cedo. Coisa rara. Com ele, mais 4 fiéis companheiros de longa data. Também veteranos. Também populares. Juntos, formavam um grupo inseparável e admirado pela maioria dos outros acampantes e, claro, gozavam de diversos privilégios concedidos pelo diretor, que tinha grande apreço por todos eles. Café da manhã fora do horário, saída furtivas do quarto quando todo o lugar já estava recolhido, cigarros, chave do banheiro externo, etc. Por lá, viu passar grande acampantes, tão populares quanto ele era agora. Talvez por isso, sempre teve ambição de possuir o mesmo respeito e despertar o mesmo fascínio que aqueles antigos veteranos despertavam nele. E enfim, tinha chegado o seu momento.
Sua atividade favorita era o futebol. No início da sua jornada como acampante, quando ainda era criança, aquele imenso tapete verde era o principal motivo do seu regresso, ano após ano. Mais tarde, já adolescente as prioridades mudaram um pouco, mas ali ainda era seu refúgio, seu porto seguro, o lugar dentro de sua casa, onde ele sentia-se mais em casa. Não era raro encontrá-lo com a cabeça encostada na trave, após o almoço, tirando um cochilo. Cena essa aliás, que rendia boas risadas das amigas que não compreendiam o fascínio que aquela grama baixa despertava no já veterano amigo. Os jogos, os campeonatos inter-quartos, as disputas ali naquele espaço, nortearam grande parte da sua vida como acampante. Era justo que ali, encontrasse a resposta para sua angustiante situação. E ela veio.
Desde pequeno, tinha feito gols e mais gols naquelas balizas. Perdera a conta de quantos. nunca foi um exepcional jogador, mas possuía certas característica que o destacava-se entre os demais, como a velocidade por exemplo. E àquela altura, seu status no lugar lhe rendia sempre a opção de joga no time mais forte. Mas mesmo com todos os benefícios e toda a sorte que aquele campo de futebol havia lhe proporcionado durante anos, uma coisa ainda estava por fazer. Algo que não conseguiu em 10 anos de temporadas. Um gol de pênalti.
E não foram poucas as oportunidades para realizar o feito. Não raro eram as vezes em que se aplicava a penalidade máxima em algum jogador mais abilidoso. E quem escolhia o cobrador era sempre o acampante em campo com mais prestígio. Questão de hierarquia. No início, bateu poucos pênaltis, mas depois a freqüência foi aumentando. Campeonatos, partidas aleatórias, futebol de casal, na chuva, debaixo do sol do meio dia, no fim da tarde.. Seja qual fosse o horário, a situação e o adversário, o tão sonhado tento nunca veio. De tanto perder pênaltis, a história foi se tornando popular entre os adeptos. Quem passava boa parte do dia no campo de futebol, junto com ele, tomou conhecimento da "maldição" e se acostumou a vê-lo em busca do seu gol nunca feito.
Mas ao mesmo tempo que sua história servia de inspiração, também aflorava um estranho sentimento nos demais. No fundo, apesar das brincadeiras e das piadas oportunas, todos queriam que aquele fato acontecesse. Mas ninguém queria facilitar. Naquela temporada, na maioria dos jogos em que ele estava em campo, o time adversário evitava fazer faltas dentro da área de uma maneira fora do comum. As vezes, com medo de um pênalti ser marcado, deixavam o jogador chutar como queria, trocando a falta pelo gol certo. Gol sim, mas não de pênalti. Virou a regra principal. A façanha teria que ser realizada por ele mesmo, teria que ser merecido, suado. Senão não tinha valor. E ele também compartilhava da mesma opinião. E aquela era, na teoria, sua última oportunidade. A idade o alcançara, e no próximo ano, já não seria mais acampante. O tempo também jogava contra ele.
No último dia completo da temporada, já não cabia em si de tanta ansiedade. Não havia decidido nada sobre sua permanência no quadro de acampantes do próximo ano, ou seja, não sabia se aquele era seu último dia como acampante. Mas sabia que havia o futebol.
Sempre havia o futebol.
Entrou para jogar como se esse fosse mais um, entre os tantos jogos já disputados ali. Esse era o sentimento dentro dele. Na dúvida, achou melhor encarar aquele jogo como outro qualquer. Assim a sensação de despedida não encontrava terreno fértil, e seu coração mantinha-se um pouco menos apertado. Mas o lugar ainda era mágico, e lá pelo fim do jogo o improvável aconteceu.
Alguém entrou na grande área e um perna incoveniente surgiu. No meio de pernas, tênis, bola, sol e gramado, o resultado foi um só: pênalti. E o cobrador, claro, já estava decidido antes daquela temporada começar.
Pediu a bola, com calma. Colocou na marca da cal. Tomou distância. No gol, um dos seus melhores amigos, integrante do quarto 16, ria e avisava em alto e bom som, parar quem quizesse ouvir, que estava destinado a manter a tradição e estragar a festa do amigo. Alto, esguio e de movimentos rápidos, era, sem dúvida, uma barreira difícil de ser ultrapassada.
Naquele momento, quem estava em campo, quem estava em volta, assistindo, quem conversava num banquinho qualquer, quem ouvia música, e quem apenas estava ali, sentiu o clima e parou para assistir. As pessoas talvez não tivessem noção do que estavam acontecendo. Talvez até nem sabiam da tal "maldição". Mas no ar, dava pra sentir que o momento não era como qualquer outro.
A bola, dessa vez, tomara o caminho certo.
O campo e a bola, fiés companheiros, enfim tinham lhe dado a resposta que precisava. Estranhamente, (mas não tanto), ele não quis mais jogar. Não disse nada, apenas saiu de campo chorando sob olhar orgulhoso de todos. Foi a última coisa que fez dentro daquele gramado.
Naquele momento, teve a certeza de que aquela era sua última temporada.
O acampamento que buscasse uma nova lenda.


5 comentários:
SENSACIONAL!!!
Um texto muito gostoso de ler, sobre uma história que, apesar de parecer, não é ficção!!!
SENSACIONAL!!!
E, devo confessar: eu nunca fiz um gol de pênalti naquele campo. També, o único que eu tive oportunidade de bater, mandei a bola pro refeitório... rs...
você escreve mto bem. =P
faaaz tempo que tô pra comentar aqui.
thanks primo.
thanks amiga desconhecida.
MUITO BOM!!!!!!
ADOREI!! VOLTO SEEEEEMPRE
Quem viveu, para ver,foi um sortudo, quem não viu, sabe da historia, mas só quem estava nas quatro linhas, é que pode sentir...
te amo irmão.. sdds de vc e desse tempo.
Boleiro,sempre!!!!
SPIRIT
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