sexta-feira, 12 de março de 2010

The Game


Estou nostálgico. Sou nostálgico. E apaixonado por futebol.

Fudeu.

O ano era 2000. Tinha acabado de me mudar da cidade em que nasci, cresci, fiz amigos e vivi por 18 anos. Logo, tudo era novo. Século novo, colégio novo, cidade nova. Mas velhos hábitos. O marlboro antes de entrar para a aula, era um deles. Até porque minha casa agora ficava a 3 quadras de onde eu estudava. Tudo era mais fácil.

Na última metade do ano, um campeonato de futebol interclasses foi organizado pela direção do colégio. Classe contra classe. Mata-mata. E é claro que eu decidi jogar.

Nosso 1º jogo foi contra a oitava série do ensino fundamental. Classe de ótimos jogadores. Rápidos e habilidosos. Dois ou três jogavam no time do colégio, comigo. Não seria um jogo fácil, mesmo para uma sala de 2º ano. Mas apesar do equilíbrio, vencemos por uma diferença de 3 gols, se não me falha a memória.

Nosso próximo compromisso seria contra uma sala de 3º ano, que havia massacrado uma sala de 1º ano, em seu último jogo. Aquele 3º ano tinha um goleiro que pegava até pensamento, e um loirinho que tinha um chute forte e preciso. Os outros jogadores também se equivaliam em qualidade. Aquele sim, seria um jogo difícil.

Minha equipe também não era ruim. Longe disso. Tinha um ala esquerdo lento, porém habilidoso. Um ala direito limitado que corria muito, mas que cansava rápido (sim, eu) e o tal do japinha que era um demônio com a bola no pé. Nosso ponto fraco era a defesa. Como ninguém se prontificou a agarrar no gol (eu, no caso, já tinha me aposentado da posição), acabamos colocando um gordinho simpático e estrábico parar assumir o posto. Era um risco mas não havia outro jeito.

Arquibancada cheia.

Começamos melhor. Chutando de longe, e tentando tocar a bola rápido. Comecei jogando, mas saí com 5 minutos de jogo, cansado. Continuamos atacando e levando alguma sorte na defesa. mas no nosso melhor momento no jogo, um contra-ataque rápido, de pé em pé, matou nosso time e com um chute forte do tal loirinho, o 3º fez 1x0. Pedi parar entrar em quadra novamente. faltavam cerca de 5 ou 6 minutos parar acabar o 1º tempo. Logo que pisei na quadra, fiz uma falta besta, na lateral da quadra. O outro time cobrou rápido e nos pegou de surpresa. O loirinho nem precisou chutar forte dessa vez. Sozinho, de frente para nosso gol, colocou a bola no cantinho, com carinho. 2x0.

Demos a saída novamente. Para nossa sorte, percebemos a outra equipe acomodada com o resultado e partimos pra cima. Em 2 ou 3 minutos conseguimos chutar 1 bola na trave e obrigamos o goleiro adversário a fazer um milagre. O gol estava próximo.

Faltando segundos parar acabar a 1ª etapa, um chute de longe de um jogador nosso, desviou na coxa do defensor deles e enganou o goleiro. 2x1. A sorte é a união entre a competência e a oportunidade. E fim de 1º tempo.

No 2º tempo comecei no banco porque tinha acabado de fumar um cigarro e não estava em boas condições de iniciar a partida na quadra. Não é lá muito saudável fumar no meio de uma atividade esportiva, mas eu estava nervoso. Então foda-se.

Começamos bem. Atacando devagar, sem afobação, procurando espaços. Até a metade do 2º tempo, jogamos um futsal de 1ª linha e o time adversário começou a cansar. Até que o goleiro adversário resolveu mostrar porque era tão bom debaixo da trave.

Tentamos de todos os jeitos: chute baixo, chute alto, de perto, de longe, fraco, colocadinho, da direita, da esquerda, do meio da quadra.. Nada. E o tempo passando. Pedi parar entrar. Faltavam cerca de 5 minutos para o fim do jogo, quando nosso japa também resolveu mostrar porque era titular do time do colégio. Numa bela jogada individual, driblou 2 jogadores e chutou forte, no canto. Lindo. 2x2.

Faltando pouco tempo para o jogo acabar, o empate já estava de bom tamanho para quem saiu perdendo de 2x0. Com aquele placar, iríamos para os pênaltis, dependendo de um goleiro estrábico de 90 quilos, ou seja: Deu-se a desgraça. Mas aí, uma luz no fim do túnel se acendeu. Confesso que nunca fui um profundo estudioso do futebol, mas naquela situação, observei uma cena curiosa. Quando algum jogador nosso aparecia livre na área, o nº1 do outro time fazia questão de se jogar no pé da pessoa, só parar abafar o chute. Pensei comigo: "ganhamos o jogo".

Olhei no relógio do ginásio: 1 minuto e meio. Pedi tempo.

Só tive tempo de falar parar o japa: "..entra na porra da área e quando o Márcio sair no seu pé, se joga! Mas é pra se jogar mesmo!"

Voltamos para o jogo.

30 segundos depois da orientação, não é que o japa invade a área driblando todo mundo, e não se joga nas pernas do goleiro infernal? Praticamente um duplo twist carpado. Coisa de Deus.

Pênalti.

Como ninguém queria cobrar, peguei a bola, coloquei na marca da tinta e afundei o dedo no meio do gol. 2x1 e a vaga para disputar a final com a outra sala do 2º ano, no dia seguinte. Vibrei demais. Urrava na quadra. O jogo terminou sem muitos problemas e a comemoração foi grande.

Naquele dia, lembrei dos meus amigos que jogaram futebol comigo no antigo colégio. Cheguei em casa, olhei para as medalhas e os troféus que ganhei, lembrei do habilidoso Cacá, do endemoniado Leandro e do mágico Soriano. Do amigo Lhô, do amigo Tunico, do amigo Léo, e do amigo Tonelli. Do elegante Ricardo Penzo, do mala Luiz Gustavo, e do disciplinado Obara. Lembrei também do sempre séri Daniel Mutti, que odiava passe longo no meio, e sempre falava dos carrinhos do goleiro. Chorei sozinho no banho durante uns 20 minutos. "Eles ficariam orgulhosos de mim" pensei.

No outro jogo, protagonizei um quebra pau homérico com um outro jogador do outro time, onde a briga tomou uma proporção enorme, e a arquibancada toda resolver partir para a porrada também. A quadra virou um campo de guerra. Enfim.. os 2 times foram desclassificados e o ano terminou sem vencedor.

Foi, sem dúvida, o melhor campeonato de futebol da minha vida. =)

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